terça-feira, maio 31, 2005

Artigos e outros trabalhos

A Angústia Social – A Visão pela Psicanálise

A angústia social é aquele medo constante de ser criticado, excluído, punido, chegando muitas vezes a ser caracterizada como “vergonha”.
Esta desagradável sensação se encontra intimamente relacionada ao que se conhece em psicanálise como “sentimento infantil de castração ou de perda do amor”, ou seja, aquele medo que as crianças tem de serem castigadas ou mesmo de não serem mais amadas por um de seus pais, em especial aquele que for do sexo oposto ao seu.
Durante toda a nossa infância somos preparados para que teoricamente quando adultos possamos lidar com as adversidades e exigências que meio nos impõe. A cada dia que passa estas adversidades e exigências aumentam absurdamente; a competição do meio social é cada vez maior, gerando o que conhecemos atualmente por “globalização”. Desde a revolução industrial iniciada no século retrasado, a sociedade vem evoluindo em uma constante escalada na procura pelo profissional mais bem capacitado e preparado para lidar não somente com questões técnicas inerentes ao seu ofício, mas com os imprevistos que possam fugir do que lhe é habitual. Dentro destas premissas passamos a educar nossos filhos para que possam responder a tais exigências.
Devemos educar sim nossas crianças e adolescentes para que estejam preparados para enfrentar estas angústias sociais, sentimentos este considerados hoje comuns, normais e aceitáveis. Porém, não devemos nos deixar cair nos extremos desta situação, ou seja, de um lado sobrecarrega-las com nossos medos de que elas não sejam capazes ou, por outro lado, de simplesmente deixa-las soltas para que não se estressem com os problemas dos adultos. Se as deixamos fora de nossa realidade estaremos prejudicando a sua construção do que se conhece por princípio da realidade, ou seja, no futuro próximo este indivíduo não terá condições (tato) de lidar com situações que necessitam de sua ação. Se cairmos no outro extremo e as deixamos em íntimo contato com as angústias adultas e lhe incutimos certo temor pela condição de adulto, estabelecemos neste um condicionamento onde futuramente o juízo de críticas e castigos é encarado de forma errada, seu medo é evidente e o torna incapaz da mesma forma de lidar com os problemas adultos.
É comum observarmos nestas pessoas que foram criadas em um destes extremos a conduta de serem e comportarem de forma dócil, cortes, atenciosamente, passivamente. São pessoas que odeiam silenciosamente que lhe digam o que e como fazer as coisas, mas não tem coragem de expor seus pontos de vista, receiam o que terceiros irão pensar deles, são pessoas que não suportam a idéia de que não lhe estejam dando a atenção devida. É comum isto ocorrer com aqueles indivíduos que trabalham com o público, como é o caso dos atores, músicos, jornalistas, vendedores, etc. onde cada abordagem inicial é sinônimo de dor, sofrimento, ansiedade, angústia e a cada final de abordagem sobrevém a sensação de alívio e bem estar caso obtenha um resultado positivo ou de um mal estar maior caso o resultado não tenha sido como o esperado.
Os resultados destas angústias sociais podem ser observados quer seja na vida profissional, pessoal ou sexual de um indivíduo. Em relação a vida profissional ela pode se manifestar por uma forma anti-social de viver, com prejuízos no rendimento profissional ou da carreira; na vida pessoal pode haver um restrição de relacionamento afetivos e sociais e na esfera sexual podemos ter casos de impotência sexual para ambos os sexos.
A análise fará com que o paciente reveja e analise a forma como foi criado desde a infância, quais os padrões comportamentais que lhe foram ensinados e como ele lida com as situações presentes quando estes padrões infantis são resgatados de sua memória. A partir do momento que o levamos a entender por que ele se comporta desta ou daquela forma, aos poucos ele próprio deixará de se dominar por suas angústias e passará a procurar lidar melhor e a enfrentar as adversidades de seu cotidiano.
DELLA CASA, Alessandro. A angústia social – A visão pela psicanálise – Belém-Pará: Jornal Estetoscópio, ano 8 nº 79, janeiro de 2005

Transtornos do Sono e Sintomas de Repetição – a visão pela Psicanálise

As causas que podem levar a um transtorno do sono de uma pessoa são várias e em geral possuem algum fator orgânico que deve ser sumariamente pesquisado normalmente por um neurologista ou um médico especialista em transtornos do sono. No entanto, quando perdemos o sono vez ou outra, ou seja, não é uma coisa freqüente, isto em geral possui um fator que normalmente é psíquico e que pode ser trabalhado ou por um psicanalista ou por um psicólogo.
O sono é um estado que em pressuposto significa que nosso corpo e mente deveriam estar totalmente relaxados, mas para uma mente excitada por conteúdos de resgate da memória infantil torna-se impossí-vel, resultando em insônia ou sono agitado.
Quando durante nosso dia a dia entramos em contato com fatores ambientais que em sua essência resgatam fatos não elaborados que se encontram registrados em nossa memória, isto acaba gerando um nível de ansiedade e/ou angústia intrapsíquica inconsciente que acaba por tirar nosso descanso noturno. O que torna muitas vezes difícil de reconhecer que a causa encontra-se em um fato passado é que o que nos vem à mente consciente é apenas o fato atual, o fato passado permanece retido em nosso inconscien-te. É desta premissa que alerto meus pacientes para tomarem cuidado com o óbvio, em geral o óbvio consciente é apenas uma parte (a desculpa, a ponta do iceberg) de nossos problemas.
Quanto aos sonhos repetitivos e aos pesadelos (sono agitado) em geral significarem conscientemente sofrimento para quem os têm, psiquicamente eles significam bem estar, pois é nestas horas que o conteúdo de ansiedade intrapsíquica é descarregada pelo indivíduo. A repetição dos sonhos visa uma tentativa de aos poucos a mente tentar lidar com aquilo que em outros tempos não lhe foi possível.
Uma outra forma de percebermos quando um fato atual encontra sua parcela de registro na infância é quando mesmo em vigília (quando estamos acordados) determinado pensamento ligado a um certo problema não nos sai da cabeça. Esta ruminação obsessiva de um determinado pensamento resulta de tentativas conscientes e inconscientes de nossa mente em resolver tanto os nossos problemas atuais, quanto os traumas pelos quais passamos e não resolvemos.
Por “traumas” entendemos o seguinte: é toda situação em que ocorre uma falha psíquica de uma pessoa em se adaptar ao meio em que vive. Esta falha no ajuste individual faz com que a mente tente encontrar novos meios, simples e não complicados, de ajuste ao meio diante de certo problema que possibilitem a ela naquele momento descarregar e se ver livre da ansiedade gerada pelo problema. Entretanto, apesar do problema ter sido “resolvido” da melhor maneira possível naquele instante, ele não desapareceu por completo, ficando registrado em nossas memórias para que em um futuro não muito distante a mente possa lidar melhor com ele e desta vez resolver de vez sua situação pendente. Mas quando este futuro chega praticamente esquecemos (conscientemente) pelo que passamos em nossa infância e daquele “problema” não resolvido, que permanece ativo e tentando se resolver dentro da esfera inconsciente. É destas tentativas inconscientes de resolução que acabamos tendo os ditos pensamentos ruminantes acima mencionados e quando perdemos nosso sono por determinado problema atual.
Para os que procuram na psicanálise a solução para seus problemas e conflitos alerta-se para que tenham paciência, pois o trabalho é demorado uma vez que se emprega o mesmo tipo de trabalho efetuado pelo sono na elaboração dos sonhos, ou seja, fazemos o paciente repetir seus atos, sintomas e fatos atuais e passados até a exaustão, para que aos poucos sua mente (ego) comece a juntar aos poucos as peças que se encontram soltas e passe a elaborar seus conteúdos inconscientes até que se tornem conscientes e seus sintomas desapareçam aos poucos. O pesaroso e complicado neste trabalho é que a mente da pessoa acaba não por enfrentar o psicanalista, mas enfrentando a si mesmo e evitando a pensar no que deveria ser trabalhado, surgindo daí os diversos mecanismos de defesa que procuram evitar que o assunto volte à esfera consciente.
É neste momento que o analista começa seu trabalho, pelas resistências apresentadas, ligando-as aos sintomas e atos que são repetidos pelo paciente até que ambos cheguem a origem dos problemas.
DELLA CASA, Alessandro. Transtornos do Sono e Sintomas de Repetição – a visão pela Psicanálise. Belém-Pará: Jornal Estetoscópio, ano 8 nº 80, fevereiro de 2005.

Masturbação

A despeito de qualquer questão ou preconceito religioso (tabus), em geral sempre ouvimos questio-namentos a respeito da masturbação, tais como: afinal a masturbação é normal ou não? Quando come-çamos a praticar? É normal praticar mesmo depois de adulto?
Por definição a masturbação significa a obtenção de prazer através da manipulação dos genitais. Pela psicanálise a masturbação é vista como uma forma de descarga de desejos sexual acumulados inconscientemente, sejam eles de qualquer tipo: desde decorrentes de estímulos sexuais propriamente ditos até mesmo como uma forma de descarga por não termos podido comprar um par de sapatos da moda que foi visto a tarde na loja.
A masturbação inicia-se ainda na mais tenra idade, mesmo durante a fase em que somos bebês podemos perceber a excitação e a masturbação como forma de obter prazer. Ela ocorre durante todo o desenvolvimento psicossexual infantil do ser humano e tem seu pico na fase denominada por Freud de fase fálica, onde toda a excitação recai juntamente com o interesse da criança para a região genital. Esta fase tem sua maior evidencia no período entre 04 e 06 anos, com uma média para os 05 anos de idade. Nesta fase a criança percebe que pode obter prazer manipulando seus genitais. Este interesse nas crianças é normal e deve ser bem trabalhado pelos pais, não havendo punições ou mesmo ameaças pelo fato deles estarem manipulando seus genitais, mas ao mesmo tempo ensinando limites para que eles não o façam em público ou mesmo para evitar que se torne um hábito. Habilmente devemos contornar a situação e procurar dar outras formas de descarga afetiva para estas crianças.
Atualmente ela é considerada uma forma normal de descarga emocional da libido durante toda a adolescência e pode ser considerada normal na fase adulta ou como uma forma de substituição quando não se dispõe de um objeto sexual ou quando é praticada juntamente com o parceiro sexual durante as preliminares do intercurso sexual.
Em uma pessoa adulta, podemos dizer que ele tem algum problema em relação a masturbação quando: a) a masturbação não é praticada na ausência de um objeto sexual e este se recusa em obter prazer pela masturbação, optando pela abstinência; ou b) então quando pratica a masturbação em intervalos regulares, mesmo tendo a sua disposição um objeto sexual – um (a) parceiro (a) –; ou c) quando o adulto prefere obter prazer pelo ato masturbatório ao invés de obter pelo ato sexual propriamente dito.
No caso em que o indivíduo se abstém da masturbação, seja qual for o motivo alegado por esta pessoa, encontramos subjacente a este caso um medo ou um sentimento de culpa inconsciente, muitas vezes originado na infância decorrente de proibições relacionadas ao ato masturbatório ou de medos advindos de sentimentos inconscientes de castração típicos da infância. Quando se prefere a masturbação ao contato sexual, isto pode indicar certo grau de timidez e inibição neurótica, decorrentes de sentimentos profundos de culpa, ou indicar certo nível de fantasia perversa, onde ele crê obter um maior prazer pela masturbação do que pelo contato sexual.
Outro fator que pode levar à masturbação freqüente é a incapacidade de se satisfazer sexualmente de forma normal, a isto chamamos de hiperssexualidade. Este transtorno em geral gira em torno de conflitos inconscientes ligados a agressividade, hostilidade, da expectativa da punição por tais pensamentos agressivos. Estes sintomas estão relacionados a forma como este indivíduo foi criado durante sua infância e, em geral, estas pessoas possuem também certo nível de neurastenia crônica.
De modo geral, a masturbação freqüente é uma forma de obsessão como qualquer outra atividade onde encontramos certo grau de exagero, ou seja, pela ótica psicanalítica, a masturbação em si não é vista como um problema no adulto, mas a prática masturbatória excessiva e freqüente sim. Ela torna-se sinônimo de uma forma de descarga excitatória através da manipulação genital, de uma necessidade não genital reprimida, rejeitada e inconsciente.
Por si a masturbação nos adolescentes e em crianças não cria futuros neuróticos, e nem mesmo os adultos que praticam masturbação são neuróticos. Mas a forma como é praticada ou mesmo se não é praticada, ou com que fins ela é praticada é que podem caracterizar uma pessoa com transtornos neuróticos de masturbação.
DELLA CASA, Alessandro. Masturbação – 1ª e 2ª partes. Belém-Pará: Jornal Estetoscópio, ano 7 nº 77/78, novembro/dezembro de 2004.